Práticas socialmente empreendedoras no setor turístico: análise das condições das Organizações do Terceiro Setor (OTS) cabo-verdianas para essa missão

  • Carlos Morais
Palabras clave: Turismo, empreendedorismo social, sustentabilidade, organizações do terceiro setor (OTS), capital social, capital humano, capital financeiro

Resumen

O turismo está em franco crescimento desde há seis décadas. É um fenómeno que desperta grande interesse político, muito devido à potencialidade que lhe atribuem na promoção do crescimento económico dos territórios em que se estabelece, particularmente naqueles que procuram encontrar caminhos para se tornarem desenvolvidos. Mas desde a sua consolidação é, também, frequentemente apontado como um agente causador de desequilíbrios ambientais e socioeconómicos em muitos países economicamente débeis.   

Com base nessas asserções, o presente estudo procura explorar a noção de empreendedorismo social – admitido como um padrão de desenvolvimento sustentável e um potencial instrumento para a resolução desses desequilíbrios – como mecanismo para a intervenção das OTS no contexto turístico de Cabo Verde – país de desenvolvimento médio que aposta no turismo como setor estratégico de desenvolvimento.

Assente na metodologia qualitativa, o seu principal objetivo foi avaliar as condições do contexto turístico cabo-verdiano, particularmente da ilha da Boa Vista, visando a implementação de iniciativas de empreendedorismo social concebidas por OTS nacionais e locais. Especificamente, propôs-se aferir se essas organizações estão munidas de capital social, humano e financeiro, tidos como recursos essenciais para se empreender socialmente.

Os resultados dão conta de um contexto que se depara com vários problemas sociais e económicos, mas que apresenta, também, recursos e oportunidades suscetíveis de serem valorizadas e potencializadas para fins turísticos, sendo que, o empreendedorismo social é percebido como um mecanismo oportuno para esse fim e, igualmente, um potencial agente de mitigação dos desequilíbrios provocados pelo turismo massificado. Porém, a cadeia produtiva do setor turístico é integrado verticalmente e controlado por grandes operadores estrangeiros. Participar desse circuito exige que as OTS tenham, efetivamente, estruturas organizacionais e gestionárias competentes. Mas apresentam, contrariamente, reduzidos níveis de capital humano e social, o que também os condicionam na mobilização de capital financeiro. Conclui-se, pois, que, grosso modo, as OTS cabo-verdianas, especialmente as da Boa Vista, ainda não reúnem as condições necessárias para fomentar e dinamizar o empreendedorismo social no setor turístico.

Citas

Afrobarometer 2015. Aumenta a percepção da corrupção em Cabo Verde. Retrieved from http://afrobarometer.org/press/aumenta-percepcao-da-corrupcao-em-cabo-verde

Almeida, J. 2011. O essencial sobre o capital social. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda.

Alvord, S., Brown, D., & Letts, C. 2004. Social Entrepreneurship and Social Transformation: An Exploratory Study. The Journal of Applied Behavioral Science, 40(3), 260-282.

Austin, J., Stevenson, H., Wei-Skillern, J. 2006. Social and Commercial Entrepreneurship: Same, Different, or Both? Entrepreneurship Theory and Practice, 30(1), 1-22.

Bernardino, S., Santos, J. F. 2014. Perfil do empreendedor social em Portugal: O caso da Bolsa de Valores Sociais. Paper presented at the Seminário Empreendedorismo e Inovação, Oeiras, Porto.

Bornstein, D. 2005. Como mudar o mundo: Empreendedores sociais e o poder das novas ideias. Rio de Janeiro: Record.

Brohman, J. 1996. New directions in tourism for third world development. Annals of Tourism Research, 23(1), 48-70.

Brooks, A. C. 2008. Social entrepreneurship: A modern approach to social value creation. New Jersey: Pearson Prentice Hall.

Brouard, F., & Larivet, S. 2009. Social entrepreneurship: Definitions and boundaries. Comunicação apresentada no ANSER-ARES 2009 Conference, Ottawa, Canada.

Butler, R. W. 1999. Sustainable tourism: A state-of-the-art review. Tourism Geographies: An International Journal of Tourism Space, Place and Environment, 1(1), 7-25.

Carvalho, J. M. 2008. Economia Solidária: Uma perspetiva sobre a experiência em Cabo Verde (Master’s thesis, Universidade de Brasília). Retrieved from http://repositorio.unb.br/handle/10482/1411

Cunha, L. 2006. Economia e política do turismo. Lisboa: Editorial Verbo.

Dees, J. G. 2001. O significado do ‘empreendedorismo social’”, tradução de “The meaning of ‘social entrepreneurship’”, Center for the Advancemente of Social Entrepreneurship. Retrieved from http://www.uc.pt/feuc/ceces/ficheiros/dees.

Ferreira, S. 2000. As organizações do terceiro sector na reforma da segurança social. In Atas do IV Congresso Português de Sociologia – Sociedade Portuguesa: Passados Recentes, Futuros Próximos. Coimbra 17-19 de abril de 2000. Lisboa: Associação Portuguesa de Sociologia (APS).

Ferreira, S. 2005. O que tem de especial o empreendedor social? O perfil de emprego do empresário social em Portugal. Oficina do CES, 223, 1-43.

Ferreira, S. 2006. Empreendedorismo social, profissionalização e emprego. Comunicação apresentada na Conferência – A Economia Social e a Promoção de Emprego, Observatório do Emprego e Formação Profissional (OEFP), Lisboa.

Flick, U. 2009. Introdução à pesquisa qualitativa. Porto Alegre: Artmed.

Hill, G., & Cooke, M. 2013. How do you build a community? Developing community capacity and social capital in an urban aboriginal setting. Pimatisiwin, 11(3), 421-432.

INECV 2015. Conta satélite do turismo 2011-2014. Praia: INECV.

Leadbeater, C. 1997. The rise of the social entrepreneur. London: Demos;

Mair, J., & Martí, I. 2006. Social entrepreneurship research: A source of explanation, prediction, and delight. Journal of World Business, 41, 36-44.

Meneses, J. W. 2012. Liderança e gestão de organizações sem fins lucrativas. In C. Azevedo, R. C. Franco, & J. W. Meneses (Eds.), Gestão das Organizações Sem Fins Lucrativos: O desafio da inovação social (pp. 135-161). Porto: Impulso Positivo.

Mignone, J., & O'Neil, J. 2005. Conceptual understanding of social capital in First Nations Communities: An illustrative description. Pimatisiwin, 3(2), 7-44.

Miles, M. B., Huberman, A. M., & Saldaña, J. 2014. Qualitative data analysis: a methods sourcebook. Los Angeles: Sage Publications.

Mourão, J. M. 2000. Desenvolvimento sustentável do turismo: Princípios, fundamentos e práticas. GeoINova, 2, 87-117.

Nicholls, A., & Cho, A. H. 2006. Social entrepreneurship: The structuration of a field. In A. Nicholls (Ed.), Social entrepreneurship: New models of sustainable social change (pp. 99-118). New York: Oxford University Press.

Parente, C. (Ed.). 2014. Empreendedorismo social em Portugal. Porto: Universidade do Porto. Retrieved from http://web3.letras.up.pt/empsoc/index.php/e-book

Peredo, A. M., & McLean, M. 2006 Social entrepreneurship: A critical review of the concept. Journal of World Business, 41(1), 56-65.

PLATONGS: Plataforma das ONG de Cabo Verde 2009. Código Ético das ONG’S e associações cabo-Verdianas de fim não lucrativo. Retrieved from http://platongs.org.cv/index.php/relatorios-e-planos/outros/93--51

Portes, A. 2000. Capital social: Origens e aplicações na sociologia contemporânea. Sociologia – Problemas e Práticas, 33, 133-158.

Putnam, R. 1993. Making democracy work: Civic traditions in Modern Italy. New Jersey: Princeton University Press.

Putnam, R. 1995. Tuning in, tuning out: The strange disappearance of social capital in America. PS: Political Science and Politics, 28(4), 664-683.

Saarinen, J. 2006. Traditions of sustainability in tourism studies. Annals of Tourism Research, 33(4), 1121-1140.

Santos, J. 2013. A economia social em Cabo Verde: Entre o público e o privado, uma via de autopromoção social e económica das populações mais desfavorecidas. Comunicação apresentada no Fórum Internacional – Proteção Social para Crescimento Inclusivo: Opções e Perspetivas, Praia, Cabo Verde.

Strauss, A., & Corbin, J. 2008. Pesquisa qualitativa: técnicas e procedimentos para o desenvolvimento de teoria fundamentada. Porto Alegre: Artmed.

UECV: Delegação da União Europeia em Cabo Verde 2014. Cabo Verde: roteiro da UE para um compromisso com a sociedade civil – 2014-2017. Retrieved from http://eeas.europa.eu/delegations/cape_verde/documents/20150106-roteiro-da-ue-para-um-compromisso-com-a-sociedade-civil-2014-2017-cabo-verde_pt.pdf

UNWTO 2017. Tourism highlights: 2015 edition. Madrid: UNWTO.

Woolcock, M., & Narayan, D. 2000. Social capital: Implications for development theory, research, and policy. The World Bank Research Observer, 15(2), 225-249.

Young, R. 2006. For what it is worth: Social value and the future of social entrepreneurship. In A. Nicholls (Ed.), Social entrepreneurship: New models of sustainable social change (pp. 56-73). New York: Oxford University Press.

Publicado
2019-03-20
Cómo citar
Morais, C. (2019). Práticas socialmente empreendedoras no setor turístico: análise das condições das Organizações do Terceiro Setor (OTS) cabo-verdianas para essa missão. PASOS Revista De Turismo Y Patrimonio Cultural, 17(3). Recuperado a partir de //ojsull.webs.ull.es/index.php/Revista/article/view/1800